O objetivo da educação é a virtude e o desejo de converter-se num bom cidadão.
(Platão)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Psicomotricidade: histórico e concepções

Inicialmente o termo psicomotricidade aparece nos discursos médicos mais especificamente neurológicos devido à necessidade de se nomear as zonas do córtex cerebral situadas além das regiões motoras. Devido ao aprofundamento nos estudos da neurofisiologia, verificaram-se novos distúrbios da atividade gestual, das atividades práxicas e que essas diferentes disfunções graves não lesionariam o cérebro. Diante disso, surgiu à necessidade de uma nova área que explicasse esses novos fenômenos, e por isso, surgiu à nomenclatura Psicomotricidade, no ano de 1870.
Em 1902, Dupré, neuropsiquiatra foi o precursor do discurso da independência da debilidade motora em relação aos aspectos neurológicos; evidenciou a “Síndrome da Debilidade Motora” dizendo existir uma relação que uniria as anomalias psíquicas juntamente com as motoras e que seria a expressão de uma solidariedade original e profunda entre o pensamento e o movimento (COSTALLAT, 2002).
No Brasil, a história da Psicomotricidade chega tardiamente, mas seguindo os passos da escola francesa, onde os estudos tiveram início na época da 1ª guerra mundial com o Prof. Dr. Julian de Ajuriaguerra, que por suas contribuições ao nascimento da Psicomotricidade, passou a ser conhecido como o “Pai da Psicomotricidade”. Contudo, vêm despertando interesse de muitos estudiosos, principalmente de educadores em busca de melhorar o desempenho de seu alunado.
Segundo Ajuriaguerra a Psicomotricidade é a experiência do corpo, como diálogo tônico, podendo ser lida como uma linguagem, afirmando que o papel da função tônica não é apenas o de servir de pano de fundo da ação corporal, mas é também um modo de relação com o outro. Sendo assim, Ajuriaguerra (1962 apud ISPE-GAE, 2009) define:


A Psicomotricidade se conceitua como ciência da saúde e da educação, pois
indiferentes das diversas escolas, psicológica, condutista, evolutista,
genética, e etc., ela visa à representação e a expressão motora, através da
utilização psíquica e mental do indivíduo.



Em seus estudos Piaget demonstrou a importância do movimento, como base de toda a estruturação da inteligência humana reafirmando que a atividade motora é o ponto de partida para o desenvolvimento das inteligências. E a partir daí, a psicologia passou a reconhecer a função tônica e a coordenação dos esquemas como objeto de estudo.
Para Le Boulch (1998) a educação psicomotora se faz necessária como forma de prevenir muitos problemas que se apresentam posteriormente e precisam ser tratados pela reeducação, e enfatiza que se a escola desse mais atenção a essa educação psicomotora nas séries iniciais, juntamente com a leitura, a escrita e aritmética, muitos desses problemas seriam evitados. Além disso, evidencia a psicomotricidade como um importante elemento educativo, um instrumento indispensável para aguçar a percepção, desenvolver formas de estimular a atenção e estimular processos mentais; afirma ainda que o trabalho da psicomotricidade é indispensável para toda criança, pois oferece uma melhor capacidade de assimilação das aprendizagens escolares.
A partir dos estudos realizados durante esse trabalho, verificamos que os autores reiteram os argumentos acerca da necessidade do trabalho psicomotor - claro que nem todos usam essa nomenclatura - mas deixam aparente a necessidade do desenvolvimento dos aspectos que são englobados pela psicomotricidade. Contudo, esta é uma questão ainda recente no Brasil, percebe-se que o assunto não é muito difundido até pelo fato de que poucas são as instituições de ensino superior que oferecem cursos para formação de profissionais da área, enquanto que em escolas de alguns países da Europa, como a França, o acompanhamento de um psicomotricista se faz necessário nas séries iniciais.
A Psicomotricidade constitui uma abordagem nova do corpo e da motricidade humana, seu objeto é o ser humano na sua totalidade, não somente seu corpo, mas suas relações com ele, tanto as integrativas, as emocionais, as simbólicas como as cognitivas. Ela assume uma postura educacional e terapêutica de desenvolver capacidades expressivas do sujeito por meio de objetivos e meios próprios, envolvendo três dimensões indissociáveis que são “o poder fazer” (dimensão psicomotora); “o saber fazer” (dimensão cognitiva) e “querer fazer” (dimensão sócio-afetiva) (GALVANI, 2002). É o aprofundamento da interação entre a motricidade e o psiquismo.
O primeiro tido como um sistema dinâmico que pressupõe a organização de um equipamento neurológico que se desenvolve e passa por maturação. O segundo elemento do comportamento humano é entendido como o funcionamento de uma atividade mental formada pelas duas dimensões: sócio-afetivas e cognitivas.
A psicomotricidade integra várias técnicas com as quais se pode trabalhar o corpo, relacionando-o com afetividade, o pensamento e o nível de inteligência. Enfocando assim, a educação dos movimentos, ao mesmo tempo em que põe em jogo as funções intelectuais. Estudos mostram que as primeiras evidências de um desenvolvimento mental normal são manifestações puramente motoras.
Nesse sentido Loureiro (2000) afirma ser a Psicomotricidade a otimização corporal dos potenciais neuro, psico-cognitivo funcionais, sujeitos a leis de desenvolvimento e maturação, manifestados pela dimensão simbólica corporal própria, original e especial do ser humano. Já Costallat (2002) define psicomotricidade como ciência de síntese, que com a pluralidade de seus enfoques, procura elucidar os problemas que afetam as inter-relações harmônicas que constituem a unidade do ser humano e sua convivência com os demais.
Em contrapartida, Fonseca (2008) enfatiza o discurso de que se deve evitar o tipo de análise de Loureiro e Costallat (2002) para não cair no erro de colocar o psíquico e o motor como elementos distintos, o que segundo seu pensamento, esses componentes seriam o mesmo. Seguindo essa ideia, Fonseca coloca a Psicomotricidade com fins educativos pelo emprego do movimento humano e não um novo método, uma corrente de pensamento.
Por sua vez a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade define psicomotricidade como a ciência que tem por objeto de estudo o homem através de seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo. Sendo assim, seu desenvolvimento é de extrema importância na formação integral do cidadão, questão base desta pesquisa, que é a de investigar se um bom trabalho psicomotor é tão importante e se sua falta estaria relacionada às dificuldades na alfabetização de muitas crianças com as quais nos deparamos nas escolas.
Por estudar o ser humano de maneira integral sem desprezar os aspectos afetivos (social), cognitivos (psíquicos) e motor, é que a psicomotricidade fornece excelentes subsídios para fins didáticos durante o processo de formação do indivíduo, visando estimular as seguintes áreas:
• comunicação e expressão, trabalhando com a linguagem e socialização ampliando o conhecimento de si e do mundo;
• percepção que é a capacidade de reconhecer e compreender estímulos recebidos;
• coordenação motora, mais ligada ao desenvolvimento físico que supõe a integridade e a maturação do sistema nervoso;
• orientação ou estruturação espacial e temporal, importantes no processo de adaptação do indivíduo ao ambiente corresponde também à organização intelectual do meio que está ligada à consciência, à memória e às experiências vividas;
• conhecimento corporal que é a percepção do próprio corpo e de todos os sentidos juntando-se a lateralidade que é a percepção dos lados direito e esquerdo; e
• habilidades conceituais que estão ligadas ao conhecimento lógico-matemático, que por sua vez é construído a partir da coordenação das relações que estabeleceu anteriormente entre os objetos.
Mediante a essa riqueza de investigação e observação que a psicomotricidade tem diante do indivíduo, não podemos descartar sua visão no processo de alfabetização, haja vista que a aprendizagem da leitura e escrita exige muitas habilidades, tais como: dominância manual já estabelecida (área de lateralidade); conhecimento numérico suficiente para saber, por exemplo, quantas sílabas formam uma palavra (área de habilidades conceituais); movimentação dos olhos da esquerda para a direita, domínio de movimentos delicados adequados à escrita, acompanhamento das linhas de uma página com os olhos ou os dedos, preensão adequada para segurar lápis e papel e para folhear (área de coordenação motora visual e manual); discriminação de sons fonéticos (área de percepção auditiva); adequação da escrita às dimensões do papel, orientação da leitura e da escrita da esquerda para a direita, manutenção da proporção de altura e largura das letras, manutenção de espaço entre as palavras e escrita orientada pelas pautas (áreas de percepção visual, orientação espacial, lateralidade, habilidades conceituais); pronúncia adequada de vogais, consoantes, sílabas, palavras (área de comunicação e expressão); noção de linearidade da disposição sucessiva de letras, sílabas e palavras (área de orientação temporal e espacial); capacidade de decompor palavras em sílabas e letras (análise); possibilidade de reunir letras e sílabas para formar novas palavras (síntese) (ROCHAEL, 2009).
Além disso, como afirma Rosa Neto (2002, p.12), “Um bom controle motor permite à criança explorar o mundo exterior aportando-lhe as experiências concretas sobre as quais constroem as noções básicas para o seu desenvolvimento intelectual”.
A importância da discussão desse tema também se dá pelo contexto social em que vivemos: frente às questões da informatização e tecnologias que vem beneficiando a sociedade, mas também proporcionando impactos negativos, por exemplo, antigamente o desenvolvimento motor da criança acontecia mais espontaneamente devido a uma infinidade de jogos e brincadeiras aos quais elas se expunham até por não restarem outros recursos.
Hoje em dia com o advento da tecnologia, vídeo-game, jogos interativos, computador, etc, a preocupação de muitos pais e educadores está em conseguir tirar as crianças da frente da televisão ou do computador, visto que isso interfere e prejudica o desenvolvimento de muitas habilidades que deveriam estar pondo em prática e que auxiliam no desenvolvimento psicomotor.
A sociedade tem mudado constantemente e os caminhos nos mostram que a tecnologia e informação estão cada vez mais facilitando a vida das pessoas, o que as tem deixado cada vez mais sedentárias. Principalmente as crianças que já crescem nesse contexto de facilidade e com a preocupação dos pais com a violência, muitas acabam ficando restritas às suas casas, onde muitas vezes não tem um espaço adequado para brincarem e se desenvolverem sadiamente. Então o que acontece é que cada vez mais médicos e nutricionistas tem atendido casos de crianças com distúrbios do desenvolvimento, obesidade, estresse, dentre diversos outros fatores relatados constantemente na mídia e nas revistas científicas.
Tendo em vista esse cenário é fato de que a escola está tendo que dar conta de resolver e desenvolver essas questões e é onde surge a dificuldade de muitos professores que não estão preparados para essa nova clientela, inclusive porque cresceram e se desenvolveram em outro contexto. Dessa forma, o que acontece é que estamos ensinando da mesma forma que ensinávamos antigamente, uma clientela completamente diferente.
Observa-se que a psicomotricidade entende que o corpo humano reflete o orgânico, o emocional e o neurológico, sendo assim, não existe sem essa totalidade; dessa forma, o tema é de extrema importância tanto para as ciências da Saúde como da Educação.

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